
Continuação...
A proprietária da casa vingou-se de nós pela destruição do molho de alhos. Ao fim e ao cabo demos um términos à protecção que a casa e seus moradores tinham contra vampiros. A partir do terceiro dia nunca mais tivemos direito a toalhas novas e limpeza, para já não falar das camas que tinham de ser feitas por nós. Tivemos que passar a lavar as toalhas porque, quanto à limpeza dos quartos e casas de banho, não estivemos para isso, pois faltavam apenas mais uns dias. Sobrevivemos, mas passámos o tempo todo a responsabilizar P pela gracinha.
Como se tudo isto não bastasse, tivemos de conviver com a Grega, nome posto a uma gatinha rafeira dos telhados, giríssima por sinal, que P ou C, não me recordo, encontraram nas imediações da casa. P e C andavam deliciadas com a Grega e até a queriam trazer para Portugal. Eu e T começámos a ver a nossa vidinha a andar para trás porque, tratar do transporte de um animal desconhecendo os trâmites legais dos dois países, não só nos faria perder tempo como poderia ser complicado. Lá as convencemos a não trazerem a Grega para Portugal.
Na manhã do nosso último dia em Eressos, depois do pequeno almoço na Mariana, fomos até à praia e encontrámos um casal de gregos com um barco a motor. Ele era um homem muitíssimo bonito, com uns olhos verdes de babar e ela era uma mulher vulgar, apesar do corpo atlético. Falámos com o homem que nos disse haverem praias muito lindas e sem ninguém, cujo o acesso só era permitido por barco. Combinou-se o valor a pagar para que nos levasse a uma dessas praias com a promessa de nos ir buscar pelas 20h00.
Como o homem era de cair, fartámo-nos de mandar bocas do género: “Mais uns dias aqui, deixava de ser fufa e ainda engatava este gajo!” É sabido que as mulheres têm um sexto sentido danado e, quando vêm uma fêmea rondar-lhes o macho, ficam logo alerta. Pois o mesmo se passou com a mulher que insistiu em vir no barco connosco não fosse, durante a viagem, uma ou todas daquelas estranhíssimas lésbicas “seriam?” que admiravam o seu homem, decidirem cantar-lhe a buena dicha.
Fomos deixadas numa praia paradisíaca, sem vivalma. Éramos só nós. Foi, talvez, um dos mais belos dias de praia que tive. O dia estava quentíssimo, eu e as amigas felizes, o sol generoso, a praia isolada, o mar com uma temperatura perfeita e de um azul absolutamente desconcertante.
O dia correu preguiçoso e permitimos que o sol nos dourasse a pele por igual já que os fatos de banho ou biquinis nem saíram das mochilas.
Perto das 20h00, vá-se lá saber porquê, começámos a ser atacadas por uns insectos minúsculos que pareciam mosquitos. Os malvados deveriam estar escandalizados com tanta languidez! Vestimo-nos à pressa e ficamos à espera que o grego nos viesse buscar.
Começaram a fluir à minha mente pensamentos como: “E se o homem se esquece de nos vir buscar? Como saímos daqui? Não temos comunicações, não temos barco, a nado não é possível, ai que ainda ficamos aqui a servir de repasto aos insectos!”. Não houve tempo para que estes pensamentos tomassem conta de mim, porque o bonitão dos olhos verdes surgiu ao longe no seu barco, qual herói das histórias de banda desenhada salvador das desprotegidas donzelas.
O regresso decorreu entre gracejos sobre o homem que, apesar de não entender português, percebeu que eram a seu respeito, pois que, lhe bailava nos lábios um sorriso trocista de quem sabe que é possuidor de uma beleza que impressiona as mulheres, gostem elas do que gostarem.
À noite, depois do jantar, demos um salto até à décima musa para exibirmos o bronze e, enfim, nos despedirmos do local que privilegiámos para as nossas noites em Eressos.
Na manhã seguinte, cedo, após pagarmos o molho de alhos à dona da casa (como se ela não nos tivesse feito pagar antes) fomos à esplanada da Mariana, a quem no dia anterior tínhamos pedido para nos deixar tirar-lhe uma foto. O pedido foi recusado com a desculpa de que não estava arranjada. Ora, apanhámos uma agradável surpresa, porque a Mariana apareceu pronta para a fotografia, brindando-nos com o rosto maquilhado, o cabelo arranjado e um sorriso (o primeiro e único que lhe vimos) que a faziam parecer quase bonita.
Saímos de Eressos de táxi para mais hora e meia de enjoativa curva e contracurva, em direcção ao aeroporto de Mitilene.
Apanhámos o voo e na descolagem, que me faz sempre ficar com o coração na barriga, não deixei de dar um último olhar à ilha de Lesbos, onde tinha passado umas interessantes férias com as minhas amigas e despedi-me com um: "Adeus Safo!"
Chegámos a Atenas ainda de manhã e com o dia livre para visitarmos o Partenon. O dia estava uma brasa e munidas de chapéus e águas lá fomos.
Quando chegámos ao berço da civilização ocidental quase me ajoelhei e penitenciei por causa do que P dizia: “com um dia de calor insuportável, vir para um sítio destes só para ver um monte de calhaus!”. Puxa! A insensibilidade daquela criatura era de bradar aos céus! Estar num local daqueles, a ver verdadeiras obras de arte e de arquitectura, com milhares de anos que nos contam a epopeia de uma das maiores e mais fabulosas civilizações do mundo e chamar àquilo “calhaus” era mais do que uma ofensa, era razão para penitência durante muito tempo.
Claro que eu, A, C e T não ligámos a P e fomos visitar tudo o que havia com o fascínio de quem parte à descoberta de um mundo novo.
Ao final da tarde, mortas de calor, fomos para o hotel para um retemperador duche e preparar-nos para ir jantar. O restaurante tinha uma esplanada com uma vista fabulosa sobre Atenas e o Partenon todo iluminado. A comida estava excelente e a fruta era absolutamente fantástica. Na verdade, a fruta na Grécia é saborosíssima.
No dia seguinte, apanhámos o avião que depois da escala em Roma se dirigiu à minha querida Lisboa, a cidade branca.
Agradeço a vossa paciência por me terem “ouvido”.