
A minha amiga Citadina (que vou passar a tratar por C) num jantar de convívio entre amigas num restaurante de comida brasileira, disse que desejava ir em Agosto a Eressos porque tinha combinado encontrar-se por lá com uma amiga grega e o grupo dela. Não precisou fazer grande esforço para aceitarmos, todas felizes, ir com ela.
A C foi, assim, acompanhada por mim, por T que na altura era a minha mulher (não era namorada, era mesmo mulher, pois vivíamos juntas há anos e só nos faltava o sim na igreja acompanhado de missinha, cantoria, comunhão e muitos ámens) mais A que estava sem namorada (pelo menos oficial) e P que não sabia muito bem o que queria e andava meio baralhada relativamente à sua sexualidade, talvez devido à sua juventude pois tinha apenas 22 aninhos.
Como não há nada de extraordinário a assinalar no que ao meu aspecto físico diz respeito, vou passar de imediato à descrição física das outras quatro mulheres.
C, é uma jovem mulher lindíssima, com tudo no devido sítio, inteligente, culta e divertidíssima.
A, sem ser uma mulher propriamente bonita, é muito interessante e também com tudo no seu devido lugar.
Finalmente P, a bebé do grupo, é aquilo que se chama uma beleza fora de comum. O raio da miúda (que agora tem 30 anos) é tão bonita, mas tão bonita que é impossível alguém não ficar a olhar para aquela beleza clássica e perfeita em completo encantamento. Uma autêntica Vivien Leigh (a Scarlett O’Hara de “E tudo o vento levou”).
Irão perceber, mais tarde, porque me detive na descrição do aspecto físico das minhas amigas.
Portanto, eram estas cinco amigas com idades compreendidas, na altura, entre os 22 e os 42 anos que se juntaram no Aeroporto da Portela com destino a Milão e depois Atenas para uma semana de férias na ilha grega de Lesbos.
Já deitávamos aviões e aeroportos pelos cabelos, quando aterrámos em Atenas, uma cidade feia com um tráfego impressionante e um escudo protector cinzento que não nos permite ver a cor do céu, o que a transforma numa das cidades mais poluídas do mundo.
Depois do check-in no hotel, fomos avisadas que o avião para Lesbos sairia no dia seguinte cedo e, portanto, tínhamos de acordar às 05h00 da manhã; uma notícia que, como se calcula, põe qualquer mortal muito bem disposto.
Lá fomos para os dois quartos. Um duplo para o casal constituido por mim e por T e um triplo para a A, C e P.
Como eu e T estávamos a passar uma crise conjugal, depois de largarmos as bagagens no quarto, enfiámo-nos no quarto triplo onde a diversão era garantida.
P, sacou de uma pedra (enorme) de haxixe e toca de desatarmos todas fumar. T, fartou-se de dar passas, desculpando-se que aquilo não lhe fazia nenhum efeito (pois não, não me deixou pregar olho a noite toda obrigando-me, em consequência, a andar no dia seguinte a arrastar-me literalmente com umas olheiras até à boca e um aspecto de boémia que só visto).
Pelas 06h00 da manhã lá nos arrastámos, as cinco, até à sala de refeições do hotel para tomarmos um pequeno almoço, servido por empregados igualmente mais mortos que vivos.
Chegadas, de novo, ao aeroporto, vimo-nos no meio de um autêntico pandemónio pois era uma loucura de gente a querer ir para as várias ilhas gregas. A nossa sorte foi que a maioria ia para as ilhas mais turísticas, como Mykonos e não para Lesbos.
Dentro do avião e já com este de rodas no ar a caminho de Lesbos, P lembra-se que se tinha esquecido do “pedragulho” de haxixe no quarto do hotel, em Atenas. Ficámos tristíssimas porque o produto era bom e serviria para uma boa parte das férias e, só não lhe fizemos (à pedra) o enterro com direito a carpidura, porque nos lembrámos que talvez o hospede seguinte a encontrasse e usufruísse do prazer que ela lhe proporcionaria.
A voz roufenha da hospedeira informa-nos num inglês macarrónico que estamos a chegar ao aeroporto de Mitilene, a principal cidade de Lesbos e que devemos manter-nos sentadas com os nossos seatbelts fasten.
Pela janela vejo Lesbos, a terceira maior ilha grega (a maior é Creta e a segunda maior é Rhodes).
Olhando Lesbos lá do alto, não consegui deixar de sentir um tremor de emoção e prazer, acompanhados por um sorriso, por estar prestes a aterrar na ilha da grande Safo, essa extraordinária e misteriosa mulher e poetisa, pioneira na expressão literária do desejo homossexual feminino, cuja obra, foi destruída quase na sua totalidade apenas restando alguns excertos, pelos homens que, desde há demasiado tempo, têm comandado este mundo.
(continua)





















